Lula nega racha dentro do G20; Amorim diz não haver mal-estar com a Argentina
da Folha Online
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva negou neste sábado que tenha ocorrido um racha no G20, o grupo de países emergentes liderados por Brasil e Índia, dentro das negociações da Rodada Doha de negociação comercial, no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio).
"O G20 não sairá rachado porque isso não faz parte da estratégia que montamos. Mas temos de respeitar as diferenças que existem entre os países", afirmou o presidente, em entrevista hoje em Lisboa.
Entenda o que é a Rodada Doha
"O Brasil não quebrou nenhuma solidariedade. Nós participamos do G20, queremos que um acordo seja do interesse do G20, mas há de se convir que dentro do grupo temos assimetrias, temos disparidades enormes entre os países", disse Lula. "Os interesses dos países não são os mesmos, embora tenhamos de encontrar um denominador comum."
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, negou hoje que a aceitação por parte do Brasil das medidas propostas ontem pelo diretor-geral da OMC, Pascal Lamy, para tentar avançar nas negociações tenham criado um racha com a Argentina. "Eu tive hoje uma reunião com o ministro [argentino das Relações Exteriores, Jorge] Taiana e não me pareceu que houvesse mal-estar", disse Amorim. "Embora sejamos sócios, irmãos, amigos, aliados, cada um tem sua cabeça, cada um joga com sua cabeça."
Ontem Lamy apresentou uma proposta para tentar fazer os EUA reduzirem o teto de seus subsídios ao setor agrícola para cerca de US$ 14,5 bilhões --abaixo dos US$ 15 bilhões propostos pela representante comercial americana, Susan Schwab. O Brasil, no entanto, esperava um teto de US$ 13 bilhões.
Nesse campo, a UE (União Européia) teria de reduzir o teto de seus subsídios ao setor agrícola em 80%, para 24 bilhões de euros (cerca de US$ 37,7 bilhões), embora esse valor já esteja dentro do escopo das reformas já aprovadas pelo bloco europeu.
"Claro que eu sei muito bem que [os argentinos] não estão satisfeitos com a proposta", afirmou. "As únicas opções a meu ver eram não ter nenhuma rodada ou ter uma rodada com equilíbrio que, sem ser o ideal, nos pareceu razoável", explicou Amorim. "Mas esta é uma questão de juízo de cada país. Eu não acho que o acordo seja o balanço ideal, nem justo talvez, mas nossa tarefa aqui não é tornar o mundo justo, é torná-lo um pouco menos injusto."
O comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, afirmou hoje que a Argentina tem muito a ganhar no setor agrícola dentro da Rodada Doha de liberalização comercial e nada a temer no setor industrial em caso de acordo na OMC (Organização Mundial do Comércio). "As exportações argentinas para a Europa serão muito ampliadas e a Argentina não tem nada a temer no que se refere ao acesso a seus mercados industriais", afirmou.
Segundo ele, as delegações latino-americanas mostram uma atividade amplamente positiva e são favoráveis a discutir sobre a base do pacote apresentado por Lamy.
Fontes da delegação argentina indicaram que Buenos Aires conseguiu elevar de 10 para 22 o coeficiente de importações de manufaturados (quanto mais elevado o coeficiente, menores são os cortes das tarifas aduaneiras). "Eles estão de parabéns e podem se sentir satisfeitos", afirmou Mandelson.
Propostas
Lamy ainda propôs que cada país possa deixar de fora da liberalização 12% de seus produtos a exportação. Além disso, 5% podem ficar sem nenhum corte nos direitos aduaneiros. Nos textos em discussão até agora se contempla a possibilidade de os países em desenvolvimento definirem até 14% de "produtos especiais", segundo o coeficiente escolhido.
A cláusula contra a concentração, pedida pela Europa para impedir que os países emergentes excluam totalmente da liberalização setores inteiros de sua indústria, poderá ser aplicada a 20% dos produtos a exportação ou 9% de seu volume de comércio.
O Mecanismo Especial de Salvaguarda, que permite a um país elevar as tarifas para se proteger de uma enxurrada de importações, poderá ser aplicado quando o volume de importações de um produto aumentar 140%. Os países em desenvolvimento poderão incluir até 4% de seus produtos a exportação na lista de produtos sensíveis, evitando corte muito alto dos direitos aduaneiros nestes itens.
Os países em desenvolvimento deverão cortar suas tarifas aduaneiras em um coeficiente que vai de 20 a 25 (quanto mais baixo o coeficiente, maior a redução).
Com informações da agência de notícias France Presse
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u426498.shtml
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