Falta de acordo na Rodada Doha prejudicará países pobres, diz Lula
da Agência Brasil
da Folha Online
Um acordo na Rodada Doha, no âmbito da OMC (Organização Mundial do Comércio), é necessário para que os países mais pobres não sejam prejudicados no comércio mundial, disse neste sábado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está em Lisboa.
"Você terá os países mais pobres sem mercado para vender os seus produtos agrícolas e, o mais grave, num momento em que se vive uma crise de alimentos, com os países mais pobres sem incentivo para produzir alimentos. Isso é que é um grande problema", disse. Segundo ele, a falta de acordo vai afetar os países menores, "que precisariam de flexibilização do mercado europeu e do fim dos subsídios americanos" para colocar seus produtos nesses mercados.
Entenda o que é a Rodada Doha
"O mundo rico precisa entender que livre-comércio não se trata apenas deles quererem vender. Isso significa que eles precisam querer comprar também", disse Lula. "O que é importante é que haja o entendimento político de que precisamos desse acordo, na medida em que ele será bom para o mundo."
O presidente Lula disse que continua esperando que o acordo na Rodada Doha será alcançado e que as divergências entre com os países do G20 (grupo de países emergentes liderado por Brasil e Índia) na negociação são normais porque há muitos interesses envolvidos.
"O Brasil não quebrou solidariedade nenhuma. Participamos do G20, queremos que o acordo seja de interesse do G20, mas vocês hão de convir que dentro do G20 temos assimetrias e disparidades enormes entre os países. Os interesses dos países não são os mesmos, embora nós precisemos encontrar um denominador comum", disse Lula, segundo a BBC Brasil.
"Não falo isso pelo Brasil, porque o Brasil é competitivo na agricultura, tem tecnologia, tem terra e tem água. Falo pelos outros países menores da América Latina, pelos países africanos, que precisariam de flexibilização do mercado europeu e do fim dos subsídios americanos para poderem colocar os seus produtos nesses mercados", disse.
O diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio), Pascal Lamy, anunciou hoje a continuidade dos trabalhos dentro da retomada das negociações da Rodada Doha, iniciada na segunda-feira (21), até quarta-feira (30) --a programação original era de que as negociações terminassem hoje. Ontem, ele apresentou uma proposta para tentar fazer os EUA reduzirem o teto de seus subsídios ao setor agrícola para cerca de US$ 14,5 bilhões --abaixo dos US$ 15 bilhões propostos pela representante comercial americana, Susan Schwab.
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse ontem que o Brasil aceitou as medidas apresentadas por Lamy e considerou a medida um "grande passo" na direção de um acordo. "Minha opinião sobre as chances de chegar a um acordo passaram de 50% a 65%."
Apesar da proposta do diretor geral da OMC para uma redução do teto dos subsídios americanos à agricultura para US$ 14,5 bilhões, o Brasil esperava um teto de US$ 13 bilhões.
A União Européia (UE), por sua vez, teria de reduzir o teto de seus subsídios ao setor agrícola em 80%, para 24 bilhões de euros (cerca de US$ 37,7 bilhões), embora esse valor já esteja dentro do escopo das reformas já aprovadas pelo bloco europeu.
O ministro de comércio da Índia, Kamal Nath, no entanto, falou em consenso, mas destacou que ainda não há nenhum acordo fechado. "Não há acordo, mas existem certas áreas de interesse. Em áreas que afetam o sustento e a segurança, que afetam a pobreza, não há acordo, não há consenso."
O chanceler argentino, Jorge Taiana, disse que as propostas de Lamy são inaceitáveis em seu estado atual. "Em agricultura as propostas são insuficientes e em produtos industriais muito elevadas", resumiu neste sábado o chefe das negociações argentino, Alfredo Chiaradia, em declarações à agência de notícias France Presse. "A posição brasileira criou uma tensão no Mercosul, mas não por nossa causa", indicou Chiaradia.
O comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, afirmou hoje, no entanto, que a Argentina tem muito a ganhar no setor agrícola dentro da Rodada Doha de liberalização comercial e nada a temer no setor industrial em caso de acordo na OMC (Organização Mundial do Comércio). "As exportações argentinas para a Europa serão muito ampliadas e a Argentina não tem nada a temer no que se refere ao acesso a seus mercados industriais", afirmou.
Segundo ele, as delegações latino-americanas mostram uma atividade amplamente positiva e são favoráveis a discutir sobre a base do pacote apresentado pelo diretor geral da OMC, Pascal Lamy.
Fontes da delegação argentina indicaram que Buenos Aires conseguiu elevar de 10 para 22 o coeficiente de importações de manufaturados (quanto mais elevado o coeficiente, menores são os cortes das tarifas aduaneiras). 'Eles estão de parabéns e podem se sentir satisfeitos', afirmou Mandelson.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u426490.shtml
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